Quimbé




De cor vermelho vivo como só o sangue tem estava a banheira onde Quimbé tentara pela quinquagésima vez cometer suicídio. Foi-o encontrar banhado no mar piranga a vizinha Silvéria após se ter dado conta que ele não havia saído para o trabalho nessa manhã. Das infrutíferas cinquenta vezes que tentara o suicídio Silvéria encontrou-o à volta de catorze. O que quer dizer que as catorze foram em casa. As restantes tentara Quimbé em variegados sítios mas com o mesmo resultado. Certa ocasião, na esperança da compaixão e bondade de deus, tivera a infeliz, ou feliz, ideia de o tentar na igreja. Deus porém não estava nos seus dias e não lhe fizera a vontade.
Desde que começara a ter maturidade intelectual para meditar sobre a suicídio não mais parara de o  tentar cometer. Não o promovia uma vontade de morrer por morrer, tão-pouco uma depressão moderna, nem a infelicidade que afeta os mais desafortunados, nada enfim sustentava a ideia de suicídio. Não tinha razões para viver, mas também as não tinha para morrer. Poder-se-ia dizer que era um impulso que lhe provinha das mais profundas e obscuras razões do ser humano, mas cujas explicações as não encontrava na metafísica do suicídio e as não conseguia explicar a partir da lógica filosófica. De resto, tão-pouco as premissas as conseguira formular, tal era o vazio do impulso que o instigava.  
Quimbé nascera prematuramente no hospital Dona Maria José de Lencastre às vinte e três horas e cinquenta e nove minutos e cinquenta e nove segundos do dia quinquagésimo do ano de mil novecentos e setenta e quatro quando a sua mãe viera de táxi ali parar depois de ter sentido que o bebé estava impaciente por vir ao mundo. Nessa noite o pai de Quimbé não estivera presente porque estava a fazer o turno da noite e a mulher não lhe telefonara para o trabalho a avisar que o bebé iria nascer. Quando de manhã lhe chegou a notícia de que a sua mulher tinha dado à luz e estava no hospital dirigiu-se para ele apressadamente, mas não a tempo de dar o último beijo a sua esposa, que ali viera a morrer depois de complicações de parto. Nessa noite o pai de Quimbé, que se chamava Augusto Andrade de Pinto Vasconcelos, por vezes chamado pelo primeiro nome e outras pelo segundo, consoante a familiaridade de quem o chamava, experimentaria o ambíguo e inexorável sentimento de quem perde ganhando. O bebezinho nascera prematuro mas bem de saúde, lindo como o são todos os bebés aos olhos dos pais; a mulher todavia desaparecer-lhe-ia para sempre. A última vez que a vira fora na noite anterior quando saíra para o trabalho e lhe dera o seu habitual e terno beijo, ela ali com a barriga grande como a de um Sancho Pança, bela como uma árvore com flores da primavera, e assim quis permanecer com essa imagem última, ao invés de a ver uma última jazendo morta como uma flor murcha de outono. Augusto Andrade viria a morrer dois anos depois de cancro da próstata. Quimbé estaria de aí em diante aos cuidados da sua tia Josefina Vasconcelos Pinto, irmã de seu pai, e casada com Amândio Carlos Loureiro.
Crescera e fora educado como qualquer criança normal. Dos tios não reza que lhe faltassem com nada. A infância passou-a com alegria. A adolescência com felicidade. E chegou a adulto bem com a vida. E em adulto viveria de bem com ela. O que com efeito não lidava bem era com a morte; esse enigma que o consumia desde que iniciara a pensar no suicídio como coisa metafisica, ou fosse lá o que fosse que o impelia a cometê-lo. Não se lhe conheciam desilusões de amores, que tantas vezes são causa de suicídios. De igual forma não se lhe conheciam problemas de identidade. Ou género. Ou sexuais. Nem vícios que o levassem a querer cometer suicídio, como drogas ou álcool. Tanto quanto a ciência da medicina psiquiátrica sabia, Quimbé não enquadrava em nada que lhe pudesse ser diagnosticado. De modo que, após vários exames e estadas em hospitais psiquiátricos Quimbé deixara de ser internado, pois, segundo lhe diziam os médicos, mais mal seria ali estar internado do que deixá-lo fazer a sua vida normal. Assim Quimbé passou a ter uma vida normal depois de alguns anos a lidar com os psiquiatras, que olhavam aquele caso como uma anormalidade dentro da ciência psiquiátrica. Era a exceção. Os hospitais quando o recebiam depois de mais uma tentativa frustrada logo o mandavam para casa. E ele em todas estas ocasiões não disse nem fez nada que indicasse que estaria falto de razão, afora a propensão para o suicídio, cujas causas eram ainda desconhecidas e talvez nunca se viessem a saber, segundo alguns afirmavam e conjeturavam.
Passaram-se os anos de internamentos e exames e consultas diárias e Quimbé voltaria à sua habitual rotina. Saía pela manhã para o trabalho, chegava ao fim da tarde do trabalho. Dava os bons dias a Silvéria pela manhã, e as boas tardes pela tarde. Os fins-de-semana passava-os em casa a ver televisão ou a ler qualquer coisa que o distraísse. Anos e anos de rotina que só era quebrada pelas frequentes tentativas de suicídio.
Havia duas semanas, contudo, que a rotina fora quebrada. Silvéria não o via desde então. Passara a sair para o trabalho mais cedo do que o habitual e a chegar mais tarde do que o normal. Ao fim de uma semana Silvéria, habituada estava, passou contar a sua saída uma hora mais cedo e sua chegada três horas mais tarde. A segunda semana já a rotina, agora diferente, estava instalada. Os fins-de-semana mantiveram-se iguais. A causa era uma moça que havia conhecido no trabalho. O seu nome era Débora, e era tão formosa quanto Dulcineia de Toboso era aos olhos de Dom Quixote. Quimbé afeiçoara-se a ela de uma forma cândida mas não apaixonada. Gostava das poucas horas que partilhava com ela à noite antes de ir para casa. Ela era afetuosa, atenta e boa ouvinte, embora fossem poucas as vezes que Quimbé falava. Mas quando o fazia, ela ouvia atentamente. A conversa que mais tempo durou entre ambos fora quando ela, após saber que ele propendia a tentar cometer suicídios, lhe perguntara das razões para aqueles ataques suicidas. Ele dissertara sobre a metafisica do suicídio, a metafisica da morte, as estadas nos hospitais psiquiátricos e os exames realizados, e ela ouvira tudo com assaz atenção sem todavia perceber as razões para a causa, que ele também lhas não deu porque as não sabia. Ela achara aquilo tudo incomum, e não descobrira com efeito uma razão que fosse para o achar maluco. Com efeito, ele parecera-lhe sempre muito lúcido, inteligente. De modo que, não cessou ali os encontros. Antes, na verdade, ficou cada vez mais curiosa para decifrar aquele mistério dos suicídios. Debalde encontrou razões para ele.
Certo dia ele contara-lhe todas as vezes que tentara o suicídio. Quando foi a primeira vez, os sítios onde o fizera, quem o encontrou e chamou a ambulância ou o levou para o hospital. Havia alguma morbidez em tudo aquilo, pensava, mas dele nada lhe indicava que ele fosse desequilibrado, tal a eloquência e lucidez com que explicava tudo sem falhar qualquer pormenor. Na verdade, pensava ela, era provavelmente um dos homens mais inteligentes com quem alguma vez estivera. Os pormenores, os detalhes, a minuciosidade indicavam uma memória prodigiosa. Poder-se-ia pensar, meditava ela, que a cada tentativa se dava um apagamento. Mas ele recordava tudo, como se estivesse nesse instante a viver esses momentos.
Contara-lhe a primeira vez. Fora um dia, tinha ele dezasseis anos e estava na escola, em que pedira à professora para ir à casa de banho. Ela acedeu, e ele lá se movera para a casa de banho. Levara consigo duas esferográficas e com elas furara os pulsos até eles verterem o sangue. Vira o sangue sair como nos filmes, vermelho, a ensanguentar o chão e ele a encostar-se às paredes da casa de banho, a sentar-se e ali ficar até vir a morte. Estivera desperto alguns minutos, largos minutos olhando o sangue a sair dos seus pulsos até adormecer como se a morte estivesse a chegar. Não chegara. E quem chegara fora o Teófilo que o encontrara banhado em sangue e imediatamente avisara na escola.  A segunda vez fora em casa. Estava sozinho. Foi à cozinha e pegou numa faca e espetara-a no peito. Desmaiou num instante. A tia encontrá-lo-ia daí a meia hora. Felizmente, dissera a tia, não fora no coração. A terceira fora mais engenhosa. Certa noite saíra na bicicleta e fora à ponte e dali se mandou ao rio. Mas alguém que passava naquele momento vira-o e heroicamente mergulhou para o salvar. A mais espectacular tinha sido na igreja. Havia conhecido uns tipos na escola que se metiam no tráfico e pedira-lhes uma pistola. Os tipos já sabiam que ele era meio maluco, que era o que se dizia na escola a seu respeito, e negaram-lha. Mas ele insistiu que não era para cometer suicídio, que estava curado e a queria para dar uns tiros apenas. Lá lha arranjaram. Então um domingo de manhã fora assistir à missa e, estando a igreja a abarrotar de gente, dera um tiro na cabeça. Mas infelizmente, sem saber como, a bala apenas perfurara um pouco do crânio sem lhe afetar nada do cérebro. A mais difícil de executar fora quando se tentou enforcar. Mas aqui não se deteve em pormenores. E assim foi contando todas as tentativas, e ela escutando-as, chocada.
A cada tentativa, mais forte Quimbé se sentia. Por cada uma falhada outra mais se realizava. Durante as semanas em que estivera com Débora não pensou em cometer suicídio. De maneira que, por ser ela uma distração achou por bem cessar ali os encontros. Quimbé dissera-lhe o que pensava; que por causa dela o estar a distrair das suas tentativas o melhor seria ali terminarem os encontros. Pedia desculpa e desejava-lhe muitas felicidades. Ela, incrédula, chorou.

Então foi quando ele tentara nessa manhã a sua quinquagésima tentativa. Silvéria, atenta como desde há muito fazia, fora encontrá-lo banhado em sangue na banheira. De imediato chamara o INEM. Felizmente ainda estava vivo. Meteram-no na ambulância e arrancaram a toda a velocidade para o hospital. A velocidade que a ambulância atingira indicava, para quem a via passar, que ali ia alguém às portas da morte. Mas Quimbé, na verdade e a despeito da sua quinquagésima tentativa, estava bem vivo, antes apenas desmaiado em virtude da perda de sangue. Estava já a ambulância na última rotunda que dava para o hospital quando o motorista perdeu o controlo dela e a fez capotar. Conta quem viu que dera acima de umas dez cambalhotas. Quando outra chegou para os socorrer, não se acreditava que aquilo que ali restava podia ter sido uma ambulância. Os tripulantes infelizmente tinham morrido todos. Quimbé, todavia e (in)felizmente estava vivo. 

Patrício



        
       Quando o dr. Patrício sai já o sol se está escondendo, crepuscular, e ele, cambaleando de cenho confuso, dirige-se para casa, onde não tem quem o espera, afora um cão adotado faz umas semanas. Espera-o todavia uma carrada de papeis que lhe levara o Vitinho, o moço dos recados, a fim de dar uma vista de olhos em todos eles para tão logo os devolver ao quem lhos enviou. A casa já se vê longe e a custo caminha, caminha em direção a ela no fim de tarde quente como um vulcão. Porém, no momento em que está prestas a entrar em casa salta-lhe em frente Maria Francisca, mulher respeitadíssima na cidade pelos homens, inquisidoramente:
 – Como tu vens, Patrício! – trata-o por tu. Esta familiaridade provém de haverem partilhado lençóis há uns anos. Desde então é tu para cá e para lá, com as raras exceções –  porquanto dissera-lhe o dr. patrício que o melhor é evitarmos estas familiaridades em frente às pessoas, sabes que eu tenho um nome. Pois claro, um nome, como se Maria Francisca não o possuísse também, ou como se houvesse alguém no mundo que o não tivesse.
         Maria Francisca preocupa-se com o dr. Patrício porque o coração assim lho diz e igualmente porque ele é bom para ela, ajudando-a em tudo que possa, uma alma de homem, na verdade. Como naquela vez em que ela, estando o trabalho precário, já não comia há dois dias e ele a apanhara a mexer no lixo; levou-a com ele para casa, deu-lhe de comer, deu-lhe banho, ia dar-lhe mais alguma coisa, mas a pobre Maria já dormia, e mesmo que não, o corpo não daria para mais. Acordara nessa manhã e o Patricinho tinha uma bandeja – com uma maça, uma banana, uma côdea de pão com manteiga e ainda um copo de leite –  em frente a Maria. Francisca sorrira àquela surpresa. Por muitos homens que tivessem dormido com ela nunca um lhe fora tão bondoso como Patricinho. Por isso gostava dele.
         – Come, e depois tens toalhas na casa de banho para tomares um banho. – Quando Maria dá à cozinha, já Patrício se achava em torno de alguns papeis. Nunca percebera que via ele naquela papelada, mas também nunca lho perguntara. Achava-o misterioso quando o via compenetrado nos papeis. Sentara-se a observá-lo. E ele gostava de a ver ali sentada, observando-o.
– A culpa é do Gomes. Quando estou para sair faz sempre questão de me enfiar mais um copo.
– Sim, sim, e a culpa d’eu ser puta também é dos homens que comigo dormem, deixa lá.
– Entra mas é antes que alguém te veja a falar comigo.
Entraram ambos. O cachorro ladrou a princípio, depois amainou-se e foi cheirar Patrício, de seguida Francisca, e enfim foi recostar-se ao ninho que ele próprio fizera na ausência do dono. Maria Francisca fora sentar-se familiarmente no sofá gasto, como se fosse já da casa. Patrício fora mudar de roupa e quando voltou pergunta a Maria Francisca se já comeu alguma coisa, se quer que faça jantar para dois. A mulher anuiu, pois está com fome, por alguma razão ali estava à espera dele, embora não apenas. O homem Patrício faz estrelar dois ovos e frita um bife, põe umas batatas a fritar e em poucos minutos estão a comer. Repartem o bife porque não há mais, conquanto suficiente a ambos porque grande, bebem o resto do vinho que ficara na garrafa da noite anterior. Não dizem nada um ao outro enquanto mastigam o bife, fosse porque esfomeados, fosse porque há um certo constrangimento entre ambos, não se sabendo bem porquê. Maria Francisca lavará os pratos finda a janta. Sentar-se-ão ambos no gasto sofá e em silêncio ficarão durante algumas horas, quebrado apenas quando Patrício convida (e se oferta) para partilhar a cama com Maria. Não queria ela outra coisa! Dormir com Patrício não ia contra a deontologia da profissão, nem era obrigação, nem nada que se pareça – antes constituía uma felicidade que nunca obtivera na vida. Estar perto daquele homem bondoso era um estado semelhante ao do alpinista quando atinge o cume da montanha. Lá em cima ele, como cá em baixo ela, sorriem ambos de uma felicidade que só cada um por si pode experimentar.
Quando Maria Francisca acorda já Patrício saiu há muito. Não obstante, de imediato, sentir-se só por ali estar só, por não poder enroscar-se nele e abraçá-lo, espreguiça e sorri, e o sol entra pela janela e clareia-lhe o rosto de felicidade. Deixa-se ficar por mais uns minutos e depois levanta-se. Na cozinha encontra um papel com um recado: “saí cedo, vou ao cemitério, depois passarei no Gomes para dar uns recados, e logo voltarei. Tens pão e manteiga aí, come.”. Assim tacitamente passam a viver juntos.
Patrício está frente ao túmulo dos pais. Troca as flores que na semana passada lá deixara. Fica uns minutos mais olhando-o, absorto. Depois decide-se a ir. Passar no Gomes, deixar os recados, voltar para casa. Enquanto caminha em direção ao Gomes pensa por breves instantes em Maria Francisca, se já se terá levantado, se já tomara o pequeno-almoço, que estará a fazer. E assim chega ao Gomes. Dá os recados a quem os espera. Pede um bagaço. Beberá outro e ficará algum tempo lendo as notícias do dia de ontem, não olhando ninguém nem ouvindo palavra, que não é seu costume, ainda que a conversa sobeje nas mesas ocupadas e o Gomes não se cale um minuto. Tanto assim é que o Gomes se vira para ele:
– O senhor dr. quer mais alguma coisa?
– Não!
– Então muito obrigado, e volte sempre.  – Por que razão o Gomes o parece estar a despachar é coisa que não se sabe. Presume-se que seja unicamente um motivo comercial.
– Não era preciso dizê-lo, bem sabe que volto sempre. – Nesta altura o dr. Patrício deveria estar a levantar-se para ir embora, tal a abordagem do Gomes o parecia insinuar.
– Foi um modo de dizer, bem o sabe.
– Está na chalaça comigo?
– Ò senhor dr. por quem me toma?!
– Por quem me sirva todos os dias diligentemente, que me não maça com questiúnculas e não se meta na minha vida. – Pareceu sentir-se acossado pela abordagem.
– Doutra forma não tem sido, senhor. dr.  – Um gozo aparente provém da voz do Gomes.
– Pois quero crer que às vezes não parece.
– O senhor dr. hoje está de mau humor.
– Acaba de me dar razão.
– Razão?
– Sim. Acabei de lhe dizer que às vezes o senhor é metediço.
– Ò senhor dr., pela alma da minha rica filha que não sou o que senhor dr. diz que sou.
– É o que é.
– Não percebi.
– Quer que lho explique?
– Se assim o desejar.
– O senhor é aquilo que é para mim. O que é para si é uma outra questão.
– O senhor dr. desculpar-me-á se lhe disser que não estou a entender nada do que está para aí a dizendo.
- Aquilo que o senhor Gomes acha que é para si é aquilo que de facto é para si. Aquilo que eu acho que o senhor Gomes é para mim é de facto aquilo que é para mim.
– Não me levará a mal o senhor dr. se lhe perguntar se o bagaço lhe caiu mal.
– Pelo contrário.
– Pois que não estou entendendo nada.
– O que está dito, dito está.
– Assim o seja, senhor dr. Nem o pretendo contradizer.
– De pouco lhe adiantaria.
– Como assim?
– O que se disse já não se pode desdizer.
– Mas pode-se retificar.
– De pouco valem as retificações se não se acha nelas retidão.
– O senhor dr. hoje está muito filosófico.
– …
– Vai mais um bagaço?
– Ò homem, eu já devia estar a sair e está-me a querer enfiar pela goela mais outro bagaço? – Já no dia anterior havia feito o mesmo e Patrício caíra como sempre cai. Às vezes quando medita sobre isto concluiu que é do desejo de beber mais um copo do que a técnica de venda do Gomes.
– Desculpe senhor dr., é o hábito.
– Pois desabitue-se.
– Não é fácil, depois de anos e anos. Além disso, vender é o meu serviço. Logo, não me pareceu nem parece mal querer vender-lhe mais um bagaço.
– Ò homem, mande lá vir mais um, então, que esta conversa já me deu sede.
– O senhor dr. saberá, decerto saberá, que o bagaço não mata a sede, antes, porém …
– Ò homem, deixe-se de conversa e traga-me lá o bagaço.
– É para já.
         Não o matou, mas moeu-o. Patrício sai já cambaleante (há quantos dias sai ele cambaleante do Gomes? Maria Francisca saberá a resposta, não por acaso o tem vigiado todos dias. Não por acaso lhe foi dar à porta ontem quando o viu chegar.). Pensa agora em Maria e apressa-se para chegar a casa. Vai assim a meio do caminho quando resolve passar novamente nos pais. Ultimamente tem pensado muito neles. Na sua ida abrupta de que nunca recuperara. Faz já há anos que o deixaram após um acidente que os vitimara ambos. Certo dia passavam sob a ponte que faz a ligação entre as aldeias, vinham ambos da casa dos amigos e casal Miranda, e assim do nada a ponte cede e desaba por sobre eles impiedosamente. Quando levaram a triste notícia a Patrício ele baqueou e desfaleceu ali mesmo. Gostavas-lhes muito. Tinham sido uns pais presentes, sempre atenciosos, preocupados com as suas arreliações, atentos como poucos. E poucos, na verdade, são assim. Porquê a eles?  Não faziam mal a uma pulga. Mas assim deus quis. E contra a vontade de deus nada se pode. Ensimesmado, reentra Patrício no cemitério. Fala com eles em silêncio. Vê-se um mexer de lábios. Às vezes parece mais um tolinho que ali está a falar sozinho. Mas não é. É uma dor aguda no coração, uma lâmina que o corta lentamente, sem remorsos, tal qual o talhante corta o pequeno e lindo coelho que outrora vivo está aqui morto. Verte umas lágrimas. Fica assim um pouco de tempo, sozinho no cemitério, sozinho no mundo (a Maria, sim, a Maria …). Volta a casa, a Maria o espera agora como mulher.
– Atrasei-me um pouco.
– Não faz mal. Trataste de tudo que havias para tratar?
– Sim. Por hoje não saio mais. Se quiseres sair, sai tu. Eu já daqui não saio.
Maria Francisca aproxima-se dele e, com o coração a bater, meio a medo meio em hesitação, que se não confunda nunca um com a outra, abre os braços como uma águia abriria as suas asas, qual arcanjo vindo dos céus, e com ternura envolve-o num largo e longamente amplexo, o qual Patrício acolheu coerente e igual ternura. Ficaram assim minutos. Francisca, por meio do seu trabalho, aprendera desde há muito a compreender os homens. Compreendia-os melhor que qualquer cientista da psicologia. Sabia-lhes os defeitos e as virtudes, e mercê disso quando calar-se ou falar. Aprendera que os homens, grosso modo, não são dados a desabafos. E quando os são, eles tomam a iniciativa. E é com efeito o que Patrício está prestes a fazer, desabraçados agora.
– Passei, como sabes, no cemitério. Fui visitar os meus pais. É como quem diz, porque eles lá não estão. Embora para mim é como se estivessem. Faço-lhes visitas desde que eles ali foram sepultados. Que me alembre, nunca um dia faltei, faça sol ou chuva, neve ou granizo, seja feriado ou domingo, natal e ano novo, carnaval ou páscoa. Por vezes mais do que uma vez ao dia. É como se fosse o meu retiro a partir do qual eu me recobro, passe a metáfora falecida e o verbo assaz desconchavado, para os dias seguintes. Se lá não fosse diariamente como tenho feito desde então, creio que hoje já cá não estaria. –  Maria tremeu a estas palavras, agora que tudo parece encaminhar-se conforme aos corações. Em tantos anos que se conhecem nunca lhe perguntara, nem lhe tinha ocorrido, pensa agora, se sentia falta dos seus pais, nada obstante saber que Patrício tinha o hábito de os visitar. – Tenho saudades deles, sabes. Muitas! Cada dia que passa é um dia que morro. É consabido que cada dia que passa é um dia que morremos. A vida assim o diz, e dizê-lo é desnecessário. Nascemos para morrermos. É a lei da vida. E as leis, não raro, são injustas. Como injusto foi a morte dos meus pais. Como injusto foi eu ter dez anos e ficar órfão. Não fosse a minha tia, que, como sabes, já ma levaram, não sei que seria de mim. Não seria o dr. Patrício. Mesmo nem sei se seria Patrício, porque a cada pedaço que nos tiram é um rasgo no coração e na personalidade que devém. Penso muitas vezes no que seria eu se os pais estivessem vivos. Se seria o mesmo, se seria melhor ou pior, e mais do que tudo, se sentiria o mesmo amor que hoje sinto por eles. Não que eu não gostasse deles, não que eu nunca os admirasse, não que eu alguma vez lhes fosse deselegante ou lhes não tenha dito que os amava, porque em tudo isto eu fui conforme o amor dos filhos, ou conforme deve ser o amor dos filhos, sempre presente e incondicional, assim como o foi amor que eles me dedicaram. Estou em crer que eles não têm nada a apontar-me, da mesma forma que eu nada tenho. E sem embargo de todo este amor mútuo, ecoa todavia como um zumbido forte e insistente no ouvido o fraquejar de saber que não há amor nunca que seja de mais e, por isso, o poderia ter dado mais do que dei. Dedicar-me mais. O amor é dedicação. Consabidamente.
Maria Francisca tinha os olhos molhados a estas palavras. Patrício não as notou, tão longe estava ao proferi-las. Sequer a estava a olhar. Quando as pronunciou fora como estivesse em transe, com os olhos longínquos, distantes, olhando um ponto na parede que a seus olhos parecia um ponto a milhares e milhares de quilómetros perdido em mar alto. Um silêncio abateu-se depois na casa, só quebrado pelo cachorro, que, por mera coincidência ou entendimento que só os cães têm, se tinha mantido em silêncio até então.
– Queres almoçar? – Perguntara Maria, posto não ter palavras para lhe dizer. Há alturas em que as palavras se reusam a sair, se a elas lhes foi dado esse alvedrio. Patrício assentiu.
Almoçaram em silêncio. Por dentro, contudo, era uma agitação em ambos, Maria pensava no que acabara de ouvir. Patrício no que sentira ao proferir todo aquele solilóquio. Emergia nele uma epifania. Sabia-o agora.
Quando almoçados e louça lavada, Maria dissera a Patrício que ia dar um passeio e voltava num instante. Patrício sentira-se aliviado porque desejava ficar a sós. Dissera-lhe se podia levar o cachorro, pois precisava de andar um pouco, ao que Maria Francisca respondera que sim, também me faz companhia. Nisto ficou Patrício sozinho.
Mal Francisca saiu de casa, Patrício levantou-se e começou a andar de um lado para o outro. Sentia-se agitado. A visita de manhã ao túmulo dos pais e a conversa de há pouco com Maria tiveram nele um efeito estranhamente desconfortável. Habituado como estava a estar sozinho, a guardar tudo que pensava para si, viu-se hoje a revelar-se como nunca antes fizera. E revelara-se-lhe em consequência aquilo que em todos estes anos procurara em vão até hoje. Continuara a andar de um lado para o outro cogitando na revelação. Deslocara-se ao quarto, pegara num bloco de notas e numa esferográfica. Sentara-se na pequena secretária da sala e começou a escrever. Ao fim de meia hora terminou e saíra. Maria Francisca ainda não tinha chegado.
Quando Maria entrara em casa, pensou que Patrício estaria a dormir. Deu de comer ao cachorro, que fome ele tinha! Foi ao quarto ver se lá estava Patrício. Não estava, porém. Na cozinha também se não encontrava. Talvez na casa de banho. Mas também aí o não encontrou. Chegada à sala viu em cima da secretária um papel, uma página de um bloco de notas. Patrício havia-lho deixado. Talvez tenha saído e o deixara, como o fizera de manhã.
Querida Maria,
espero que o teu passeio haja sido bom e que o cachorro tenha corrido tudo que possa, a fim de à noite poder dormir. Lembro-me agora que nunca lhe dei nome. E curiosamente ele sempre me obedeceu, vá-se lá saber como e porquê. É um bom cachorro. Muito meigo. Tem um respeito por nós como os homens não logram ter. Os cachorros são muito obedientes e fieis. Já os homens são uns insurretos. E infiéis.
Quero que saibas que apesar da vida que até hoje levaste, em nada ela fez de ti uma mulher rancorosa. Pelo contrário, és a mulher mais meiga que conheci até hoje. Não foram muitas, como bem sabes. Mas nenhuma tão carinhosa como tu. É verdade que apenas tivemos duas vezes juntos, no sentido de partilharmos a cama. Uma há anos, como bem te recordas, e uma outra esta noite. No meio disto, frequentaste a minha casa noutras ocasiões e sempre muito solícita e carinhosa comigo. Creio ter feito de tudo que estava ao meu alcance para te ajudar sempre que de mim necessitaste. Se assim não sucedeu, desde já lamento muito.
Saí e não volto mais. Deixo-te a casa. E espero que cuides bem do cachorro. Mas mais do que tudo, que cuides bem de ti. Agora tens uma casa onde dormir e cozinhar. Aproveita bem a vida, pois ainda és uma árvore a crescer e a florescer. Ah, e que flores vais dar! Já as vejo lindas como tu.
Já não tenho mais espaço para escrever. Mas creio ter dito o suficiente.
Teu,

Patrício. 

Orlando





Ouviram-se os tiros a poucos metros dali. Não havia dúvidas de que vieram do edifício ali perto. Olharam-se uns aos outros e acenaram com os olhos o assalto que se preparavam para fazer. Dali a minutos estariam a entrar no prédio.
Com o pé, o número 33 empurrara a porta com força e abrira-a. Uma vez ser prédio de muitos andares e os tiros estarem a ser trocados nos últimos pisos, esperavam não ser ouvidos. Entraram uns atrás dos outros, protegendo-se entre si. Já dentro, iniciaram o assalto aos últimos andares. Subiram as escadas com velocidade, porém sempre atentos, de sorte que chegassem o mais célere possível aos últimos pisos.
O grupo era constituído por dez atiradores. Dentre todos, o 33, o 28 e o 27 eram os mais eficientes na arte de atirar, algo que era reconhecido por todos. Dos três eram contadas histórias de grande feitos, o que para os amigos eram consideradas com grande admiração; para os inimigos com grande terror. A empresa do assalto dependia muito do talento dos três. Porém, o 33 morreria no primeiro andar, com um tiro a entrar-lhe pelo peito. O 28 seria abatido logo de seguida quando se preparava para atirar no inimigo. E o 27, com sorte semelhante, morreria às mãos de um dos mais admiráveis atiradores inimigos.
Assim, de um grupo dez atiradores restavam agora sete.
O inimigo pouco mais tinha em número. Mais uns cinco, talvez seis, não se sabia ao certo, porquanto um havia desaparecido e não se sabia dele há horas. Também o inimigo tinha os seus atiradores eficientes. E também o inimigo veria os seus melhores atiradores serem abatidos mais depressa do que o melhor dos atiradores disparava da sua arma. Por conseguinte, não sendo estes os que aqui estão os melhores dos melhores, era com estes com que se contava.
Os tiros que se ouviram antes quando o grupo do 33 e demais atiradores se achavam fora do prédio, provieram duma fenda que se abrira no grupo dos inimigos quando um dos atiradores discordara dos planos traçados. Sem contemplações, um dos melhores que já morrera atirara no discordante como quem atira numa lata de cerveja. A discórdia surgira quando o falecido, aquele que levou os tiros do eficiente atirador igualmente já morto, se insurgira contra o plano de saírem do prédio e irem ao encontro do inimigo. Pensara ele que a melhor estratégia seria ali esperar - escondidos cada um em cada compartimento do prédio - pelo inimigo e surpreendê-lo quando este entrasse. Se é certo que morrera mal o dissera, certo foi também que prevalecera a sua opinião. E assim concluíram por ficar esperando o inimigo como um animal pacientemente espera pela sua presa. O atirador eficiente que já morrera após ter atirado no que discordara, anuiu que o melhor com efeito seria esperar – o que, bem vistas as coisas, poderia ter pensado melhor antes de atirar no já falecido.
O inimigo aproxima-se. Ouvem-se já os passos lá em baixo. O medo apodera-se, a adrenalina sobe, cada qual se posiciona a fim de melhor atirar.

***

O prédio, a que deram o nome, em tempos, de Orlando, em homenagem ao seu arquiteto, contava com vinte e dois andares e sessenta e seis apartamentos. Devoluto há já uma década, encerrava uma degradação provocada por moradores sazonais. Em tempos frios ali confluíam vagabundos, toxicodependentes, prostitutas. Em tempos quentes, os grafiteitiros, os hippies, freaks, e alguns miúdos que iam lá parar a fim de brincar, entre outros tantos. Não faltavam as ratazanas, pois claro. A todos (excepção as ratazanas) a polícia corria de longe a longe, por ordem do proprietário que adquirira o edifício há um ano e que projetara estabelecer ali escritórios do mundo financeiro. Um antro de lixo nauseante acumulara-se durante uma década, mercê da estada daqueles, que eram parcos em limpezas e também se lhes não exigia, com efeito.
Eis, pois, o cenário que encontraram os atiradores, quer os que entraram primeiro, quer os que entrariam depois.
Os que primeiro entraram estavam neste momento a postos nos seus postos acordados anteriormente a fim de esperar pelo tiro certeiro. Sendo em maior número, estavam, portanto, em vantagem. Mas nem sempre ganha a maioria. Do lado direito do edifício, nos últimos dois andares, ficaram uns quatro, cada qual no seu apartamento à espera de atirar no inimigo. Do lado esquerdo, ficou a maioria. Os corredores, porém, ficaram desprotegidos adrede. O escopo era claro. Era preciso que o inimigo se deslocasse à vontade pelos corredores com vista a serem apanhados desprevenidos. Estando libertos os corredores, o inimigo poderia ser encurralado no centro pelos da direita e pelos da esquerda.
O inimigo, porém, estando em menor número, teve de acautelar-se com mais inteligência. De modo que, após terem chegado a meio do edifício, reuniram-se silenciosamente e acordaram que em vez de invadir os últimos dois pisos onde estaria o inimigo, o melhor seria ficar ali mesmo à espera que ele descesse.
Deste modo, nem os de cima vinham para baixo, nem os de baixo iam para cima. A guerra parecia ter entrado em estagnação.

***

O 77, atirador que fazia parte do grupo dos de baixo, encontrava-se agachado no apartamento contíguo ao do atirador 36 e estava há já uma hora à espera de movimentos, que ora não vinham e o faziam desesperar. Pensou por momentos levantar-se e ir ter com o 36. Doendo-lhe as pernas, o que mais lhe doía era a fome no estômago. O 36, por seu turno, refletia sobre a espera e concluía que era vã, e que o melhor seria avançar agora mesmo, apanhando-os desprevenidos, e quem sabe sonolentos.
No grupo dos de cima, o PP, que se encontrava justamente a dois andares por cima do 77, dormia há já meia hora, como bem calculara o 36. Em frente, o ZZ, que bem poderia fazer zzzz como o PP, estava com os nervos em franja e só à custa de muito treino conseguia aguentar não sair do seu aposento disparando para todos os lados.
Isto era apenas o pouco que pensavam uns e outros. Porque, na verdade, o que a todos ocorria com frequência bastante era saírem dali para fora e ir comer um hambúrguer, bem passado e com bastante molho, uma cerveja a acompanhar e depois um cigarro para selar o prazer.
Entediados todos, com fome uns poucos, alertas nenhum, terminaram uns por dormir, outros por fazerem uns charros e outros ainda por deambular na espera entediante que já se fazia há três horas. De tudo isto se dizia ser proibido e se lhes dissera quando na recruta. Foram ensinados e treinados para estarem sempre concentrados e alertas. Como bem se sabe, o corpo aguenta muita coisa, mas quando o cansaço emerge não há corpo que resista. E é assim que sucede neste momento a todos eles.
Estava nisto o inimigo de cima, e bem o sabemos o debaixo, quando resolve um deles ir ao encontro do outro que se encontrava no compartimento do lado. Não aguentava já de tanto tédio. Era o TT e fora ter com o CC. Estão nisto ambos, quando chega o PP. Fazem um charro, partilham como é hábito, e entabulam conversa, sobre o quê não se sabe bem. Neste ínterim chega o ZZ. Nervoso de carácter, não teve contemplações e disparou no TT, assim sem mais. O CC e o PP, atónitos, perguntam-lhe que raio lhe passou pela cabeça. Mas o ZZ dá meia volta e volta para o sítio para onde tinha sido destacado. Menos um tem o inimigo agora.

***


A espera ia já em quatro horas. Esperavam os de cima, esperavam os de baixo. A fome apertava a todos, e depois do charro ainda mais, que a larica sobrevém sobremaneira quando se dá uns bafos. Foi, pois, quando alguns do inimigo debaixo resolveram desertar e fazer o caminho inverso, descendo as escadas e abandonando o local de guerra.
Estavam estes já a duzentos metros do local quando os atiradores do inimigo, num acto de sorte, vieram espreitar à janela e viram aqueles a caminhar em direcção à cidade, despreocupados, na ramboia, seria o melhor que se poderia dizer. Acto contínuo, procederam ao mesmo e iniciaram descer o prédio, já despreocupados com inimigo. Estavam a meio da empreitada quando um disparo veio a surgir e atingiu um deles mesmo no meio do peito. O ZZ dispara e acerta na testa do que disparara antes. Certeiro como o Big Ben nas horas. Em poucos minutos estavam todos cá em baixo.
Abrem a porta de saída, o Manuel grita “João, espera por nós, que vamos convosco!”. O João responde que vão todos à hamburgueria, estamos cheios de fome, venham lá ter. Uma hora depois estão fartos de um bom hambúrguer, cerveja e conversa a rodos.

Entretanto, o atirador dos de cima que havia desparecido mal logo haviam chegado ao topo, acorda do sono profundo que havia estado durante as cinco horas, agarra na arma, põe-se a postos e alerta à espera do primeiro tiro. O tiro, porém, nunca chegou a ser. 

Nina



Como em célebres histórias difíceis de acreditar mas não impossíveis de acontecer – sucedendo mais vezes do que possa parecer –, dera à vida numa alcofa, muito bem aconchegada como um gato enrolado sobre si mesmo, à porta de casa dos Martins. Júlio e Vitória Martins. Há muito casados, são um casal abastado mercê de heranças de ambos e bem-visto pelas pessoas da vila, consideradas pessoas de bem, como sempre o são as pessoas abastadas. Quando Nina se lhes deu à vida nessa manhã, Vitória vira no aparecimento da pequena um milagre, pois o seu útero era falho de perfeição e não lhe permitia procriar. Como sucede as mais das vezes com milagres, Vitória agradecera a deus por este lhe ter dado a possibilidade de ser mãe, corrigindo deste modo o defeito com que a prendara. Júlio, por outro lado, mais racional nestas coisas de milagres e crenças atribuiu o aparecimento da pequena a uma coincidência e às vezes, quando matutava no assunto com mais força, ao facto particular de eles serem abastados e pessoas de bem e, por conseguinte, a mulher que deixara a criança procedera com o intuito de dar um futuro à filha que ela lhe não poderia dar. Supondo que se tratara de mulher e não um homem, ainda que o hábito remeta as mais das vezes para a mulher. E supondo ainda que se tratara de deixar à pequena um futuro melhor do que poderia ter, se criada com as pessoas que a procriaram. De tudo isto não se sabe o que acontecera, os motivos e quem foi, sabendo-se apenas quando fora. E é quanto basta a Vitória, e em algumas ocasiões a Júlio.
Não o é todavia para Nina. Desde criança que sabe que não é filha dos pais. Estes não lho esconderam quando ela os ouviu falar sobre o assunto e de seguida os indagara. Fora-lhe contada toda a história, tendo a história pouco para contar. Apareceste-nos aqui na porta da frente numa alcofa e estavas muito bem embrulhada, como um presente de deus, parecias um gatinho enrolado sobre si mesmo, não choraste quando pegámos no cesto e te trouxemos para dentro para o calor da lareira; não choraste quando te desembrulhámos dos cobertores que te acolhiam no quentinho e não choraste quando pegámos em ti nos braços e nos miraste com olhinhos de admiração, talvez de alívio, não sabemos. Eu e o teu pai não faláramos uma palavra tal era o nosso espanto. Desde aquele dia que te fizéramos nossa filha. Nunca soubemos quem foi que te deixara, quem era teus pais. Percorremos toda a vila, e as das redondezas, em busca de saber quem eram eles e por que te deixaram aqui, logo aqui na nossa casa, bendito seja deus, mas nunca obtivéramos resposta. Não houve nem há alma nestas vilas que saiba de onde nos apareceste. Desde então oficializámos a tua filiação. Éramos teus pais e assim o seremos até morrermos. Isto ouvira Nina e até hoje esta é a versão com que cresceu.
Mas Nina tem agora dezoito anos, e sem embargo da história que os pais com emoção contaram, sobreviera-lhe a necessidade de buscar ela as respostas que os pais nunca obtiveram. Foi pois com determinação que se abeirara dos pais, estavam estes no lareira em conversa silenciosa, e lhes disse meus queridos pais, estou muito grata por tudo que vós fizestes por mim, desde o conforto à educação, ao carinho permanente e amor incondicional como se fosse vossa filha consanguínea, mas és nossa filha, interrompeu a mãe, porém Nina continuou sou vossa filha, tendes razão, mas o não sou de sangue, e a mãe ia interromper novamente mas a filha prosseguiu no discurso expondo as razões por que iria partir em busca de respostas para as dúvidas que lhe assolavam de noite e que a não sossegavam. Sairia daí a três dias e ir-se-ia instalar na vila próxima a fim de investigar tudo quanto pudesse sobre a sua ascendência. Não adiantaria demovê-la pois estava determinada e não haveria quem a demovesse, inclusivamente o amor dos pais, que tanto amo neste mundo, disse Nina. Vitória começara a chorar; Júlio contivera-se. Ambos, porém, entenderam. Deram o seu consentimento, supondo que necessário fosse, e Nina partiria três dias depois.
A vila próxima tinha pouco mais de cinquenta habitantes. Fazer o périplo não levaria uma semana. Efetuaria as perguntas que fossem necessárias e as que não fossem necessárias mas achasse úteis e as que nunca foram efetuadas. Nina instalara-se na única pensão da vila. Ali ficaria por uma semana, a correr como desejara.

***


Antes muito tempo da partida, Nina excluíra ir ao registo e notariado, uma vez que não sabia o nome dos seus pais verdadeiros. Logo, consultar um genealogista pouco lhe adiantaria, também. Assim, Nina decidiu-se por procurar nas vilas próximas, na cidade e cidades limítrofes, e se necessário fosse ainda, sair de próprio país. Com efeito, Nina procedeu as suas buscas parentescas pela vila vizinha, após o que, resultando infrutíferas, seguir-se-iam as seguintes e depois as cidades e depois o país e os países vizinhos e o mundo inteiro até ao dia em que encontrasse os seus pais.
Metera-se no comboio que fazia a ligação à vila e seguiu na empreitada. Pretendia começar a sua investigação pela casa da senhora Aldevina, visto que, em tempos, quando se cochichava na escola não ser filha dos pais, ouvira que Aldevina havia comentado com os pais de Augusto que ela porventura fosse filha da Maria Lurdes, em tempos longínquos habitante da vila vizinha. Sabia, portanto, que a possível mãe já não morava na vila limítrofe, mas pelo menos saberia por Aldevina onde ela teria ido viver. Chegara à vila já noite, pelo que só no dia seguinte iria a casa de Aldevina.
A pensão onde dormiria situava-se defronte ao edifício da junta de freguesia da vila, um edifício imponente cuja história remontava há já duzentos anos, e a poucos metros de casa de Aldevina, a quem Nina iria bater à porta logo pela manhã e a quem extrairia o máximo que pudesse saber sobre os seus pais.
Logo pela manhã cedo, Nina sai da pensão rumo a casa de Aldevina. Bate-lhe à porta, esta já a espera, cumprimentam-se e a velha senhora diz para Nina entrar. Senta-te, senta-te, minha filha, diz a velha. Nina senta-se, e sente o cheiro a bafio da casa. A solicitude da velha pergunta a Nina se quer alguma coisa para beber ou comer, a timidez da pequena diz que não, pois já saí comida e bebida da pensão, muito obrigada. Muito bem, diz a velha, então que queres tu saber afinal, embora soubesse a que vinha a pequena – eram palavras de preâmbulo, apenas. Nina explica por que vem e o que quer saber, pois ouvira dizer que a velha sabia que ela possivelmente seria filha de Maria Lurdes. Então a velha Aldevina inicia a expor o que sabe à pequena.
Quanto tu apareceste na casa dos Martins, como saberás, começaram imediatamente os rumores. Na tua vila não havia ninguém que tivesse de barriga, pelo que ficava excluída. Ora, aqui, tanto quanto sabíamos, também não. De maneira que, da nossa vila não podias ter tu vindo. Foi então que soubéramos que na vila aqui ao lado havia uma jovem rapariga que, segundo alguns viram, estava de barriga e podia muito ter sido a tua mãe. Mas quando os teus pais por aqui andaram a saber quem eram os teus pais, encontraram-se com essa jovem rapariga, a qual lhes mostrara a criança que acabara de ter há uma semana. Os teus pais excluíram então que poderia ser ela a tua mãe. Mas nunca ninguém se perguntou se a jovem pequena não teria tido dois, pelo que tu serias a outra. Até hoje ninguém se preocupou por saber e perguntar disso. Passaram-se estes anos e tanto quanto sei e os meus velhos olhos conseguem ver, a criança já está grande, é uma mulher jovem como tu e não tem parecenças nenhumas contigo, pelo que da minha parte eu te digo que não és irmã, e logo não és filha dessa jovem, hoje mulher grande. Depois de muito se pensar, refletir, especular mesmo, abandonou-se a reflexão e a especulação. Anos passaram-se até que um dia estava eu na mercearia do Fonseca e vi surgir uma mulher, a Maria Lurdes, e sobreveio-se-me como que saída dos confins mais inóspitos da memória a lembrança de ter visto aquela mulher, jovem pequena na altura, andar de esperanças. Até hoje nunca soube por que ninguém se lembrara dela. Não era daqui, a pequena. Falei com ela nesse dia e como quem não perde nada em perguntar e muito menos em arriscar quando nada se tem, perguntei-lhe se a pequena estava boa de saúde, se estava crescida e se já andava na escola. A cara dela, minha filha, enrubesceu de tal forma que eu pensei seria o reflexo da maça vermelha que o Fonseca vendia ali mesmo. Respondera-me ela que não, que não estava boa de saúde, que não estava crescida e que não andava na escola. Não estava boa de saúde porque estivera doente, não estava crescida porque nunca o chegara a crescer e não andara na escola porque nunca chegara a lá chegar. A pequena, minha filha, tinha morrido de tuberculose quando tinha dois anos. Se a vergonha tivesse vergonha teria ali dado mostras mesmo a toda a gente que entrava. Depressa me despedi e fui-me para casa para de lá não sair durante um mês. Mas estava eu nesta enclausura de vergonha quando novamente a minha cabeça deu à luz uma outra ideia, a qual não era senão a mesma que me ocorrera anos antes sobre a outra jovem, que era a de que a jovem pequena pudesse ter tido uma irmã, que a mulher Maria Lurdes pudesse, por acaso ou por obra de deus nosso senhor, ter tido gémeos, sendo tu irmã da pequena que morrera sem ter crescido e ido à escola. Pusera-me a caminho da vila a fim de tirar as dúvidas que me atormentavam. Perguntei em toda a vila, em primeiro lugar, se a Maria Lurdes havia tido filhos, com vista a saber se era verdadeiro o que me contara, e asseveraram-me que era verdade sim senhor, que tivera e que infelizmente falecera. De seguida perguntei se era possível que tivesse tido gémeos, mas nada me souberam dizer. Andava eu nestas lides de polícia detetive quando dou de caras com Maria Lurdes. Reconhecera-me ela e sorrira-me e ia-se já embora quando a amarro pelo braço e, qual polícia que aponta a arma ao bandido, perguntei-lhe se ela não teria tido gémeos. Não sei se era da sua natureza se das perguntas, mas não é que ela enrubesceu novamente e me disse no entanto que não, não tive gémeos, infelizmente. E assim como o disse, se foi. Até hoje, pequena, tenho esta ideia na minha cabeça de que tu és filha dela. Já não mora na vila vizinha, segundo ouvi dizer, mas na vizinha da vizinha. Passa lá, sim, e pergunta-lhe, que uma mãe nunca esquece uma filha.
Nina ouvira tudo isto com atenção, mesmo quando observava algumas baratas subindo as paredes, ou mesmo quando uma aranha do tamanho da ponta de um dedo lhe passou por cima da mão. Nunca se desviara do que a trouxera ali. E sabendo pois que o passo seguinte seria ir à vizinha da vizinha, eis o que devo fazer, dissera-se.


***



A vila vizinha da vizinha era uma pequena vila ainda mais pequena que a vila vizinha e que a vila, donde que todos se conheciam muitíssimo bem e melhor ainda conheciam os seus segredos, o que, bem vistas as coisas, não eram segredos. Nada tinha de diferente das vilas vizinhas senão a sua dimensão.
Nina aterrara na vila vizinha da vizinha sem ir de avião, mas de comboio, uma vez mais. Desta vez, porém, não tinha onde ficar, mas esperava, dada a pequenez da vila, ficar apenas um dia, uma vez que unicamente iria saber de Maria Lurdes, suposta mãe sua. Como em todas as vilas, não há melhor que perguntar nos cafés, nos barbeiros e barbeiras, que as há nesta vila, nas mercearias, enfim, onde a língua faz parte da família. E fora, por conseguinte, aonde Nina se dirigiu. Porém, atalhando, saiu de todas elas sem saber o que fosse sobre a sua suposta mãe, ou sem saber uma pista que fosse sobre a sua ascendência.
Desanimada, Nina, ia já quando dá de caras com um senhor vetusto de bengala, um velho simpático cuja cara parecia a de um velho feiticeiro, qual Gandalf, que se atém ante ela e lhe pergunta se vem à procura de sua mãe. Nina acena com a cabeça tristonha, o vetusto de bengala faz um gesto para que o siga. Nina acompanha-o. Vão rumo a casa do velho onde este lhe dirá que Maria Lurdes já se não encontra na vila, mas mesmo que se encontrasse de pouco importava, uma vez que não é sua mãe. Nina ficará mais triste do que já se achava. O velho oferecer-lhe-á uma chávena de chá, ela aceitará de bom grado. Ambos se sentarão à lareira e conversarão noite adentro.
O velho Gandalf contará o que sabe e acrescentará o que julga saber.
Desde pequeno que sou dado a curiosidades, e uma vez sabido do teu caso, já lá vão dezoito anos, não parei de pensar nele nem de investigar o que pudesse saber a respeito da tua história. Soube há dias que te dirigias para aqui, por isso te encontrei ali. Também eu já perguntei em todos os lados que perguntaste. Também eu pensei que eras filha da Maria Lurdes. Mas não és. Ela mesma mo disse e nada me indica que não devo acreditar nela. Percorri todas as vilas vizinhas e vizinhas das vizinhas, inclusivamente saí do país e fui ao nosso vizinho, depois ao vizinho do vizinho, e para além desses todos. Quase diria, posso dizer-to, que percorri o mundo em busca de respostas para o teu nascimento. Eis que nada descobri. Não há registo escrito ou oral do teu nascimento. Não há pai ou mãe que tenha conhecimento do teu nascimento. Não há pai ou mãe que tenham conhecimento de te haver concebido. Não há pai ou mãe que te reconhecem como filha ou te reconheçam os olhos. Não hã mãe ou pai que tenham conhecimento de te haverem deixado na alcofa em frente à porta dos Martins. Não há mãe ou pai que alguma vez te tenham visto no colo deles ou de outrem. Não há pai ou mãe neste mundo que possam ser teus pais e tu filha deles, naturalmente. Eis a verdade tão nua e tão crua como uma mulher sem roupa e uma maçã tão verde. És uma Eva, Nina. És uma Eva, Nina.

Nina saiu de casa do velho rumo não se sabe onde, tão confusa estava de se saber uma Eva nua e uma maçã crua. Não voltou para trás a fim de fazer o caminho que fizera e a levara ali. Partiu para o mundo e o mundo partiu dela. 

Mila





        Sob um edifício vetusto, porém habitado, cinzento e com largos metros de comprimento, paralelo a outro em todo semelhante, situava-se um dos estabelecimentos mais antigas da cidade em cujo interior se reuniam os mais diversos grupos mafiosos e terroristas da cidade, entre outros pequenos criminosos. Dir-se-ia que era uma mixórdia de criminosos. O estabelecimento existia já desde o século passado, sobrevivendo a todas as crises por que passara o país e a todas as crises por que passara a economia do crime. Propriedade de família italiana, a meio do século passou para uma família irlandesa, sendo hoje propriedade de uma família russa. Tinha o peculiar nome de Mila, que em russo significa amor do povo. O nome, porém, era também o mesmo que lhe dera origem, que em italiano significa trabalhadora e ativa – segundo julgamos saber, embora sem nenhuma propriedade. Pelo meio os irlandeses deram-lhe o nome de Hennessy’s. Quando os russos se apoderaram do estabelecimento aos irlandeses tomaram a iniciativa de saber a sua história ficando pois a saber que se chamava Mila quando pertença dos italianos e tendo sido esse o seu primeiro nome. E como Mila também era nome russo, decidiram que assim se chamaria. Democraticamente, Mila seria o nome incontestado.
Desde há vinte anos que Mila tem um cliente frequente, além do cliente habitual e o qual lhe dá a sua sobrevivência, falamos pois do criminoso. O cliente frequente é um velho citadino que passa os seus dias em Mila bebendo e fumando, lendo e conversando. O seu cliente habitual é cliente desde sempre: o criminoso que passa para buscar as encomendas, para receber o dinheiro, para combinar os crimes, para conspirar contra o governo, para saber quem matou quem e quem encomendou o quê, e tudo afim ao crime. O cliente frequente é um velho homem de cara enrugada, barbas grisalhas, nariz grande que lhe confere um ar sério, de bom trato, falador, mais ainda com os copos, com uma cabeça que mais parece uma abóbora, quer dizer, grande em demasia, fazendo jus à sua estatura, pois de quase dois metros. Certo dia ao passar perto de Mila, esfomeado por não comer há já um dia, decidira-se a entrar, e desde então passara a ser cliente frequente. É igualmente benquisto por todos os habituais clientes de Mila.
Em Mila, todos, podemos dizer, se conhecem, mas nem todos se gostam. Não raro há umas zaragatas, comuns a estes estabelecimentos, que facilmente se resolvem. Outras, porém, são de mais difícil resolução. Seja por exemplo, a relação que o grupo constituído por irlandeses tem com os italianos. Aqueles surripiaram Mila a estes, e sem embargo de no seio do grupo já não permanecer um elemento que seja desses tempos, a relação mantém-se inalterada. Outra má relação, esta embora de índole histórica, é a que os japoneses têm com os chineses. Não se dão por nada deste mundo, nem do deles. Há ainda as dos turcos com os gregos, também histórica. Como se vê, quando estes grupos se misturam em Mila, há por certo confusão da grossa. Porém existe um pacto, entre todos, segundo o qual em tratando-se de negócios não deve de modo algum haver confusões, pois, de acordo com o bom senso economês, não fazem bem aos negócios. Há contudo algo que une alguns destes grupos e com o qual nunca discordam, a saber, o ódio comum ao inimigo. Pois assim quando se trata de conspirar contra o inimigo, até os maiores inimigos são os maiores amigos. Verdade consabida.
O velho cliente frequente ri-se a bom rir com estas zaragatas. Observa-as desde o dia em que aqui vem. Conta ele agora a Alek, o velho russo que aqui toma a sua vodka sem faltar um dia do ano, ontem os romenos entraram por aí adentro a fim de debater-se com o Li, o chinês que no outro dia roubara Anca, a filha do Cristian, que como sabes é o líder dos romenos, mas deram-se mal; qual Bruce Lee, o Li desancou em todos com pontapés para aqui, punhos para acolá, eram uns a cair, outros a levantar-se doridos, e todos a sair em menos de minutos; te digo, Alek, até a mim me doeu. O velho russo ria-se como um bêbedo, sem o estar. Alek era conhecido dos donos de Mila desde que estes se apropriaram do estabelecimento em meados de cinquenta, mas só cliente há dez. Era um fulano circunspecto, de cara rosada, cabelos quase brancos, alto e corpulento, olhos grandes e azuis, e com uma conduta dir-se-ia irrepreensível. Não obstante a sua prudência em relação aos outros, dera-se desde logo muito bem com o velho cliente frequente. Portanto, desde há dez anos que vem mantendo uma boa relação com o velho. A qualidade rara de observância deste é para Alek uma mais-valia. Na realidade, o velho cliente frequente é de uma escrupulosidade e minuciosidade com relação aos pormenores, que Alek inveja positivamente. O velho cliente frequente é capaz inclusivamente de descrever ao pormenor o pequeno lixo que o turco traz nos sapatos, ou o fio do cabelo pendente no casaco do japonês, ou seja por exemplo aqueloutra vez em que velho cliente frequente descreveu pormenorizadamente o plano que os turcos tinham de colocar uma bomba na casa dos japoneses.
Contava-se assim: os japoneses, por intermédio e com ajuda dos gregos, estavam a avançar no crime da droga e a vir a ocupar as ruas que estavam a cargo dos turcos. Os gregos haviam concedido as suas ruas e bem assim fornecido aos japoneses com vista a que estes se apoderassem das ruas e do negócio dos turcos. Os turcos através dos italianos vieram a saber que os japoneses estavam bem fornecidos e que estavam a vender o produto a metade do que eles vendiam. Isto só poderiam ser más notícias, disse o velho cliente habitual, pois aos turcos restava-lhes, no meio do crime, apenas o negócio da droga. Sem ele, não saberiam mais o que fazer. Já nem os negócios dos kebabs lhes valia. Não havia outro meio que não eliminar os japoneses. Aqui, naquela mesa, estavam os quatro turcos chefes a preparar o plano. Consistia em meter quatro prostitutas no prédio dos japoneses, levando uma delas uma bomba, pois, diziam, eles fraquejavam ante as mulheres. Duas chegariam em primeiro a fim de os embebedar; a terceira entrava a meio para os distrair; e a quarta entraria à socapa, instalaria a bomba, juntar-se-ia às outras três durante uma hora, após o que desceriam e assinalariam que estava tudo conforme. Restava pois aos turcos ativar a bomba, e pum, iam todos pelos ares. Mas Alek, quem foi pelos ares foram os turcos, como bem sabes, é que no meio disto tudo estavam os turcos com a guarda abaixada e os gregos aproveitaram-se e meteram eles uma bomba no prédio dos turcos, e pum, foram os turcos rezar a meca através do fumo emanado pela explosão. No mundo do crime, todavia, ninguém fica a rir-se, e não tardou que os gregos fossem presos pela polícia quatro dias depois. De pouco valeu o pacto. Quanto aos japoneses, receberam dos gregos o avisamento sobre a bomba. Safaram-se.
O velho cliente frequente é apreciado por todos os que frequentam Mila. Sejam eles chineses, romenos, turcos (estes reduzidos a meros três criminosos que agora tentam reconstituir, angariando mais elementos, o grupo), japoneses, gregos, russos, italianos ou irlandeses, ou mesmo aqueles que não pertencendo a nenhum grupo mafioso frequentam Mila. Mercê de um bom senso incomum e de uma sensibilidade distinta, o velho que é cliente e outrossim frequente fala com todos e todos falam com ele, ouve os que pode e os que querem ser ouvidos. Não muitas vezes foi visto a resolver contendas, das pequenas, claro está, entre os grupos. É o juiz em Mila.
Dele nada se sabe, pelo menos em Mila. Donde é, se é casado e tem filhos, que idade tem, do que vive. O que se sabe é que aqui vem todos dias e todos os dias faz as mesmas despesas (exceção feita quando a ultrapassa). Que lê os jornais, que lê os livros que traz, que escreve num bloco de notas, que por vezes simplesmente fica a observar os criminosos e as gentes, que conversa com as pessoas, as gentes e os criminosos, que muito fala com Alek, o russo, que gosta de comida russa, bebidas russas, mas não é russo, que a nacionalidade também não lha sabem. É um mistério, mas apenas para quem aqui não vem, porquanto os que aqui vêm não querem saber dele para nada, por muito boa pessoa que o velho cliente e frequente seja.
Sabemos nós, porém, que o velho não é muito velho, que é casado e tem dois filhos, uma filha já crescida e um filho em vias de crescer, uma mulher devota desde há largos anos, que vive a dois quarteirões de Mila, e que tem um rendimento não se sabe bem do quê, porque isso a nós não nos chegou. Portanto, o velho que frequente Mila não é um parasita que alguém se lembrou de descrever, e também não é um zé-ninguém que passa os seus dias num estabelecimento onde se servem comida e bebidas e onde param criminosos para planear os seus crimes, ora pequenos (as drogas, a prostituição, os roubos), ora grandes (terrorismo).
Por falarmos em terrorismo, apercebeu-se o velho um dia destes que um novo grupo se instalara em Mila já vai um mês. Não são ocidentes, nem orientais do tipo japoneses e chineses. Mas também não são médio-orientais, do tipo iranianos, afegãos. Na verdade, este grupo não é homogéneo mas também não é heterógeno. Não é homogéneo porque nenhum indivíduo do grupo se assemelha aos restantes e tão-pouco há características a partir das quais os possamos identificar. Por outro lado, também não é heterógeno porque nada nestes indivíduos parece ser dissemelhante. Não há traço neles que os aparentem, o que lhes conferia alguma homogeneidade, nem traços neles que o distinguem, o que lhes conferia alguma heterogeneidade. De outro modo, aos olhos dos demais estes indivíduos são como que estranhos seres que apareceram sabe-se lá donde, não se aparentando com ninguém que alguma vez haja sido visto em toda a história da humanidade. Por exemplo, as mulheres não se distinguem dos homens e vice-versa. Os velhos não se distinguem dos novos. A cor é sempre a mesma. Não há pretos nem brancos nem amarelos nem vermelhos, muito menos verdes, para aqueles que agora pensam na possibilidade de serem extraterrestres. Os cabelos da mesma cor, ou melhor, incolor. A cor dos olhos igualmente incolor. As mãos, tendo cinco dedos cada uma delas, não se parecem com as de um ser humano dito normal, nem dito anormal, muito menos com as de uma aberração qualquer que a história tenha deixado nos relatos. A cabeça, porém, é a do tamanho médio de um ser humano. A boca sendo semelhante a nós humanos é porém distinta nos lábios, mas não sabemos bem em quê, apenas que o é. No mais, é igualmente desigual a qualquer um de nós humanos. Aquilo que, contudo, não se pode ver com os olhos, não sabemos nós como é nem parece que alguma vez nos venha a interessar. Quando à língua, falam a mesma que a nossa. No atinente a gastos em Mila, estes novos clientes apenas gastam dinheiro em duas coisas: água e comida, sendo a comida sempre a mesma, uma mixórdia russa, que, pelos vistos, lhes deve agradar ao palato. Não sabemos se alguma vez provaram ou provarão outra.
Para os chineses, eles não são seres humanos – não sabemos as razões por que foram os chineses os primeiros a refletir sobre estes seres –, mas não são extraterrestres, pois a imaginação chinesa ainda tem os seus limites. Para os russos, eles são uma espécie de seres ambiguamente inumanos, no sentido antigo do termo, muito embora nos parece que os russos não fossem capazes de pensar tal coisa. Para os gregos, mais dado a reflexões, não são nada, pois todos na choça e não contactaram com eles, sequer. Para os italianos, não são nada. Sequer se deram conta destes seres – por alguma razão Mila lhes fora roubada. Enfim, para nós que os observamos de fora, eles com efeito não se parecem com nada que alguma vez tenhamos visto. São como que um desenho pintado com lápis branco numa página igualmente branca.
Reparara o velho cliente frequente em todos estes pormenores há já um mês e ainda não concluiria nada. Sem embargo de tudo que acima fora dito e que o velho reparara e talvez até tirara notas, o comportamento é em tudo semelhante ao nosso. O nosso velho ainda não falara com ninguém no tocante a estes novos elementos em Mila, e sabe-se igualmente que os restantes clientes habituais também não, senão entre eles mesmos. Está o nosso velho na sua frequente mesa a ler o frequente jornal e bebendo a frequente vodka, hábito que ganhara por causa de Alek, a pensar nestes estranhos seres e no que serão e no que quererão e por que aqui vieram dar, logo aqui a Mila, e ouve um deles muito baixinho dizer que a melhor hora será às dezanove horas porque, não ouviu o resto o velho, o presidente lá estará, ouviu agora, e quanto mais pessoas estiveram melhor para nós, ouviu novamente. Velho astuto, percebeu que se trata de uma combinação em ordem a uma tentativa de assassínio do presidente. É sabido que o presidente vai estar numa inauguração amanhã às dezanove no museu das Coisas Velhas, que é o que os museus são na verdade, enfim, anunciara-se hoje em todos os programas de informação. Logo, conclui o velho astuto, estes seres estranhos vão tentar matar o nosso presidente amanhã pelas dezanove horas. É preciso fazer alguma coisa imediatamente, pensou.
Pensara telefonar para a polícia, mas indo já em direção a casa cogitou que o melhor seria ir ele próprio à polícia. E eis então que se encontra agora na polícia. O polícia que o atende pergunta-lhe que pretende, ele responde que o presidente corre perigo. Procedimento habitual nestas coisas de atentados, pegam no velho e levam-no para uma sala a fim de saberem todos os pormenores, mais parece um interrogatório, e o velho conta tudo o que ouviu. Sabemos pois que o que conta é muito pouco, pois pouco foi o que os seus ouvidos puderam ouvir. E sabemos igualmente que o que conta sobre os estranhos seres não é crível para os polícias, porquanto quem de bom senso iria acreditar que seres como os retratados pelo velho existem?!. Coisas que não se parecem com nada, afiançam uns aos outros. Deste modo sai o velho da delegacia em direção a casa com a certeza que a polícia nada fará para salvar o nosso presidente. Decide então telefonar a Alek e pô-lo ao corrente do que possivelmente vai suceder. Explica igualmente o que a polícia não fez e não vai fazer. Alek ouve-o atentamente, e enlevado por toda esta trama, qual KGB, manifesta a vontade, em última instância, de contactar todos os clientes habituais de Mila, quer dizer, os criminosos, a fim de contar com a ajuda deles e do seu arsenal com vista a ajudar a proteger o nosso presidente. O velho cliente frequente anui, pois, claro é uma boa ideia.
São dezoito horas e os velhos, o nosso velho e o velho Alek, e alguns criminosos, os que acharam por bem uma vez na vida contribuir com algo de bom para o país, estão em frente ao museu de Coisas Velhas. A segurança não foi reforçada, como já se esperava, pensa o velho cliente. Com os telemóveis sob a gabardina que vestem e uns auriculares vão contatando uns com os outros. Um dos criminosos, que tem contatos com os vereadores da câmara, arranjou forma de pôr todos dentro do museu. Por ora ainda estão fora. Não tarda estarão lá dentro, a fim de proteger o presidente daqueles seres que não sabemos quem são, acaba de pensar o velho.
Quando o velho saíra no dia anterior da polícia, estes levaram a sério o aviso de que o presidente corria risco de vida. Só que, em vez de pensarem que fosse em razão de uns seres incolormente estranhos, acharam que o presidente sim corre risco de vida devido a esse velho que está paranoico, foi o que disse o subcomissário da polícia, não explicando por que achava o velho um risco e paranoico. A polícia tem destas coisas, quando se pensa ter visto de tudo, alguma coisa surpreende-nos. Eis o pensamento deste subcomissário. Na realidade, o subcomissário pensou o seguinte: um velho vem cá contar que uns seres estranhos, incolores, que se parecem e não parecem uns com os outros, como que por mágica ou um efeito estranho aos nossos olhos, vão atacar o presidente às dezanove horas e a segurança não dará por isso, mas na verdade quem atacará o presidente é esse velho maluco, porquanto ele quer é distrair-nos, e ter vindo aqui contar é uma forma de desviar as atenções. Pois assim amanhã teremos de estar de olho neste velho e quem com ele venha, estão a perceber, disse o subcomissário após o velho ter saído da delegacia. No dia seguinte armou toda a delegacia a fim de ir toda, literalmente toda, para a segurança e vigia ao presidente. Assim, no dia do atentado ao presidente a polícia inteira da cidade estava de vigia. O velho porém não reparou em nada. O que é normal, porque estavam todos à paisana, com exceção do habitual destacamento de segurança.
O carro do presidente aproxima-se, diz o velho para o velho Alek e os criminosos. O carro do presidente aproxima-se, diz o subcomissário para os seus agentes. O presidente está a sair do carro, estejam atentos, diz o velho para o velho Alek e os criminosos. O presidente está a sair do carro, estejam atentos, diz o subcomissário para os seus agentes. O presidente está a entrar no museu, diz o velho para o velho Alek e os criminosos. O presidente está a entrar no museu, diz o subcomissário para os seus agentes. O melhor é entrarmos, diz o velho para o velho Alek e os criminosos. O melhor é entrarmos, diz o subcomissário para os seus agentes, avisando todavia os que já lá estavam dentro. Vamos pela frente, diz o velho para o velho Alek e os criminosos, como combinámos. Vamos por trás, diz o subcomissário para os seus agentes, como combinámos. O presidente entrará dentro de cinco minutos, estejam atentos, disse o velho para o velho Alek e os criminosos. O presidente entrará dentro de cinco minutos, estejam atentos, disse o subcomissário para os seus agentes. O presidente entra agora mesmo, é agora, diz o velho para o velho Alek e os criminosos. O presidente entra agora mesmo, é agora, diz o subcomissário para os seus agentes.
O que se passou a seguir foi assim contado pelos noticiários, os quais não temos razões de duvidar. Quando o presidente estava prestes a falar, a polícia adentra pelo museu, uns polícias vindos do lado direito, outros do esquerdo, outros da frente e outros de trás, de arma em punho, afastando tudo e todos, e no meio deste círculo policial estavam dois senhores com idade que gritavam umas palavras incompreensíveis, supõe-se que assustados com o que se estava a passar, e os quais no meio da confusão foram baleados, em primeiro lugar, e em segundo o nosso presidente. Ao que o nosso jornal apurou, o tiro que alvejou o presidente foi de uns criminosos que se encontravam no museu à mesma hora, alegadamente entraram por intermédio de um dos vereadores, que, tanto quanto apurámos, se dava com os criminosos e mantinha uma relação de há uns bons anos com eles.
Foi assim que a notícia passou na televisão em Mila. Os que restavam, olhavam o ecrã incrédulos com o que e com quem se tinha passado. Os seres que não se pareciam com nada nem com eles mesmos já não iam a Mila há dois dias.



Libório




Houvera quem se tivesse dado ao trabalho de me conceber. Benditos sejam! Houvera quem me pusesse o nome de Libório, mas às vezes chamam-me Lib. Houvera muitas coisas na minha vida. Benditas sejam! Algumas delas, contar-vo-las-ei. Outras morrerão comigo, como morre muita coisa connosco sem nos darmos conta disso.
Tenho vinte e três anos. Um terço da vida já lá vai. Não a recuperarei nunca. O que ficou para trás é impossível de recuperar. Ter consciência disto é morrer todos os dias.
Vivi bem, enquanto pude. Fiz esforços para a que minha vida fosse o mais suportável possível. Umas vezes consegui-o; outras não. Importa tentar, sói dizer-se. E tentei.
Quando somos crianças achamos que somos diferentes das demais. Achamo-nos especiais. Os pais quase nos fazem acreditar nisso. Os seus filhos são sempre especiais. E contudo eu o era. Nunca me disseram em que era eu especial. E eu nunca o descobri. Mas sei que fui especial.
Não era porque fora intelectualmente precoce: aos quatro já sabia ler e escrever. Não creio igualmente que fosse por criar empatia com as pessoas. Ou que fosse a compaixão que brotava de mim à medida que a consciência se ia formando que fizera de mim especial. Enfim, não sei mesmo o que fora. Só sei que o fora.
Quando tinha seis anos, tivera uns vizinhos muito pobres. Todos sabíamos que aquela família vivia com sobejas dificuldades. O Pedrito, que era o filho dos meus vizinhos, não raro me dizia, com o ranho a cair-lhe pelo nariz, que tinha fome. Lembra-me ainda hoje muito claramente quando mo dissera da primeira vez. Desatei a chorar e fui a correr para os braços da minha mãe, a fim de lhe dizer que ia levar a comida que sobrara do almoço ao Pedrito, pois estava com fome e tinha-mo dito. Não pronunciara uma palavra, dado que pensava que não falando dos problemas eles não existiam. Era o procedimento vulgar das pessoas vulgares. Fechar os olhos ao que nos rodeia para que o infortúnio dos outros nos não afete. O Pedrito comeu sofregamente o pouco que lhe levara. Era muito para quem tinha e comia muito pouco. Perguntava-lhe eu enquanto ele comia se estava a gostar, e ele olhava-me com a perna de frango na boca, sujo, acenava com a cabeça e continuava. Comia como um cão, o Pedrito! Perdoe-se-me a comparação. Mas comia mesmo como um cão. Aquele meu gesto era para mim mil refeições que eu pudesse ter durante a vida. A satisfação que obtivera ao ver o Pedrito comer era para mim impagável. Quando cheguei a casa nessa tarde, já princípio de noite, dissera a minha mãe que o Pedrito comeria, doravante, em nossa casa todos os dias até os pais lograrem um trabalho. Os meus pais não disseram uma palavra. E o Pedrito passou a comer lá em casa. Umas vezes também dormia.
Os pais de Pedrito não tinham qualquer problema com álcool e essas coisas a que habitualmente as pessoas associam à pobreza. A mãe, Josefina, fora despedida da fábrica onde trabalhava há já quinze anos. Como ela, outras mães. Ao pai, Gabriel, sucedera-lhe o mesmo, depois da empresa para a qual trabalhava ter entrado em insolvência. Estavam em falta com a renda de casa havia meses, a luz estava quase a ir-se, o gás já só havia a última botija, e sem a qual não se podia cozinhar e com a qual faziam apenas uma refeição por dia, contando sempre os minutos quando a usavam, e por causa disso não tomavam banho há semanas. Quando ia buscar o Pedrito para almoçar ou jantar, ou para brincarmos, entrava naquela casa e o cheiro penetrava em mim com uma força que me fazia perder a fome, quando se tratava de levar o Pedrito para comer.
O Pedrito começara a ser o irmão que eu não tivera. Protegia-o como se fora meu irmão. Brincávamos ao esconde-esconde, aos cowboys, jogávamos à bola, íamos à ameixoeira do senhor Manel roubar umas ameixas, outras vezes umas maças, e ríamo-nos como doidos! Ah, que saudade desses tempos!
Depois o Pedrito mudara-se, com os pais, para a casa dos avós, cuja ficava a oito quilómetros. De vez em quando pegava na bicicleta e ia visitá-lo, dado que ele não tinha uma. Quando me via, lá vinha a correr na minha direção e pedia para o levar nela. Colocava-se de lado e lá descíamos a toda a velocidade a que a bicicleta podia atingir. Depois pedia-me para andar nela. Pedia-me para lhe ensinar a fazer cavalinhos. Para lhe ensinar a fazer peões. Ah, o Pedrito!
Recordo-me como se fosse hoje, estava a fazer os deveres de casa quando a minha mãe entrou no quarto. Parecia ter os olhos molhados. E disse-me: “Libório, quero que venhas à sala, porque eu e o teu pai queremos falar contigo.” Como a escola me corria bem, pensei que me iam dar uma prenda, pois já há muito que lhes pedia a nova bola de futebol que ia ser a do próximo mundial. À minha ansiedade de ver a nova bola, sobreveio o baque, forte, lancinante, como uma faca afiada apunhalando cada pedaço do meu corpo, a notícia que o Pedrito tinha falecido. Corri porta fora a chorar, e os meus pais atrás de mim chamando-me. Corri tanto nesse dia!
Foi a partir desse dia que me decidi que queria ser bombeiro. E também nesse dia nasceu comigo a vontade de ser atleta. A primeira, porque queria salvar milhares de milhões de Pedritos. A segunda, porque queria correr infinitamente à procura do Pedrito.
Tinha então catorze anos quando me inscrevi nos bombeiros. Primeiro, fui cadete. Depois aspirante. E depois bombeiro de terceira classe.
À época, com quinze anos, já podíamos fazer o que então se chamava de serviço. Fora pois ainda muito novo que comecei a fazer serviços. Lembra-me ainda hoje o primeiro que fiz. O Tó foi o motorista. Uma senhora idosa, acamada, com dificuldades de respiração, necessitava da nossa ajuda. A filha havia telefonado para os bombeiros para que a fossem buscar. E eu e o Tó lá a conduzimos ao hospital. Durante os meses seguintes, a infeliz idosa passou a ser cliente habitual dos bombeiros e do hospital. Ainda a fui buscar umas três vezes. Depois, ou morreu, ou morreu, pois deixei de a ir buscar e de a ver no hospital.
A segunda vez fora uma transferência. Um fulano que havia tido um acidente de mota e partira o braço tinha de ser transferido para o hospital da cidade vizinha, uma vez que o hospital da nossa cidade não tinha o serviço de ortopedia. Foi um serviço simples, visto que o senhor andava e nem fora preciso a maca.
Depois houve uma terceira e uma quarta e por aí adiante.
Vi coisas tenebrosas. (Não fora só o Herberto que as viu.)
Estar perto da morte não me fez olhá-la de forma diferente. Vê-la tão-pouco. Em nenhuma morte vi o Pedrito. Procurei o Pedrito em todas as mortes que se me depararam na frente, mas em vão. Pensei que confraternizando com a morte pudesse fazer as pazes com ela e entendê-la como o comum das pessoas a entende, a saber, que faz parte da vida. Mas até hoje nunca a entendi. Perguntei-lhe diversas vezes porque levara o Pedrito, mas a puta nunca me respondeu. Em resposta, levava mais um que me passara nas mãos. E a cada um que me tirava das mãos, era mais um Pedrito que me deixava.
Seja por exemplo aquela senhora que caíra do trator enquanto lavrava o campo. Quando chegámos ainda estava viva. Quando arrancámos estava-se a ir. E quando chegámos ao hospital, foi-se mesmo de vez – talvez ter com o Pedrito. Com a maca nas nossas mãos, passámos em frente às pessoas que estavam nas urgências, ora esperando ser atendidas, ora esperando por familiares serem atendidos, e entrámos de rompante. Os médicos vieram logo em socorro. Ainda em cima da maca, fizeram os médicos todos os esforços para trazê-la da morte, usando o desfibrilador. Choque atrás de choque a mulher insistiu ficar na morte. Só ouvi a médica dizer para a enfermeira que eram tais e tais horas. Mais uma!
Quando comecei nas corridas conheci a Felisbela. Também corria. Passámos a treinar juntos. A Felisbela tinha um coração enorme, por isso me apaixonei por ela. Mas um dia parou-lhe.
Fazia eu o meu percurso habitual de treinos quando a vi passar por mim. Ia sozinha. Não era habitual ver uma mulher correr. Aliás, nunca tinha visto sequer. Nesse dia, não disse nada. No dia seguinte, tornei a vê-la, mas envergonhado nada disse. Andei uma semana para lhe falar e não lhe falei. Eis que quando me decido a falar, Felisbela se abeira de mim e me pergunta, com um sorriso na cara tão belo quanto os vedas, se pode fazer-me companhia. Anuí. Mais a mais porque treinava sozinho e companhia era sempre bem-vinda. E sendo Felisbela, melhor ainda. Dois meses depois estávamos a namorar.
A nossa primeira corrida juntos  tivera dez quilómetros. Era numa das cidades vizinhas. Eu fiquei em vigésimo quinto. Ela em décima nona. Nos respetivos géneros.
Num dos nossos treinos conjuntos, certo dia, combináramos fazer uma meia-maratona, mas em ritmo de competição. Acordáramos que treinaríamos para ela e que a segunda do calendário competitivo a correríamos. Até hoje Felisbela ainda a está a correr.
Desde esse dia, abandonei as corridas. Nunca encontrara o Pedrito (e corri, corri, corri para encontrá-lo), e perdera, ainda, Felisbela.

Como bombeiro que sou, e mau grado as mortes que vi, tive a felicidade de nunca ter visto colegas meus morrerem em incêndios, como quase todos os anos morrem colegas nossos. Nunca gostei muito de combater incêndios. É apavorante ver as labaredas amarelo-torrados defronte a nós. Mesmo com a agulheta na mão, elas intimidam-nos. O calor deixa-nos sem pensar. O melhor, e muitas vezes o pensei, é fugir. Fugir para longe dali. Mas nunca fugi. Sempre achei que era especial, e que a minha especialidade era defrontar a morte. Via-a vezes suficientes para não temê-la. Não a temo. Ela vem, chega devagar, a chama lenta inicia primeiro por amarrar-se às botas, depois vai subindo pelas calças, sinto o calor trespassar o meu corpo, o cheiro a queimado, a carne queimada, mas não a temo. Enfrento-a como a enfrentei toda a minha vida. Ei-la aqui: em mim. Chegou. Finalmente vou encontrar-me com o Pedrito.